Série de reportagens: Secom gasta milhões em publicidade, mas imagem de Wilson Lima só piora
Não são apenas as polêmicas escolhas de Wilson Lima para comandar a Secretaria de Estado de Comunicação Social (Secom) que chamam a atenção. Os repasses milionários para agências de publicidade – em plena crise de imagem do governo – revelam uma estratégia questionável: enquanto o estado investe pesado em propaganda, a popularidade do governador despenca.
E os números não mentem. Mesmo com campanhas massivas nas redes sociais, outdoors e inserções na mídia tradicional, Wilson Lima enfrenta cobranças diárias da população. Basta uma rápida olhada nos comentários de suas postagens oficiais no Instagram ou nas ruas de Manaus: reclamações sobre falta de serviços básicos, desemprego e promessas não cumpridas dominam o debate.
Onde está o retorno desse investimento? Enquanto a Secom contrata agências com orçamentos astronômicos, a insatisfação popular só cresce. Será que o problema não está justamente nas prioridades do governo?
Enquanto o governo do Amazonas contrai empréstimos bilionários – mais de R$ 6 bilhões só em 2025 – setores essenciais como Saúde e Segurança Pública continuam em colapso. Apesar da grave crise nos serviços básicos, o governador Wilson Lima não economiza quando o assunto é marketing político.
Com um orçamento milionário para publicidade, o ex-apresentador de TV trabalha para turbinar sua imagem e personalizar ações governamentais. A estratégia não parece casual: candidato ao Senado em 2026, Lima aposta forte na mídia para garantir visibilidade e capital político, mesmo diante do descontentamento popular.

As empresas 1001 Filmes e Mene Portela se destacam como parceiras queridinhas de Wilson Lima. Na programação da SECOM, Wilson Lima dispõe da produção de conteúdo que apresenta uma imagem de gestor trabalhador, sempre disposto a ajudar, cheio de boas ideias e que “nunca descansa”.

Desde 2020, duas empresas de comunicação vêm sendo beneficiadas com contratos milionários pelo governo do Amazonas, com reajustes anuais generosos que chamam a atenção. Os dados, disponíveis no Portal da Transparência do próprio governo, mostram como a administração Wilson Lima tem investido pesado em marketing político enquanto a população sofre com a precariedade dos serviços públicos.
O caso da 1001 Filmes
A empresa 1001 Filmes é um dos exemplos mais emblemáticos. Seu primeiro contrato com o governo estadual, em 2020, ultrapassou R$ 5 milhões – valor destinado a transformar Wilson Lima, então um ex-apresentador de TV, na nova revelação da política amazonense.
Ano após ano, os valores só aumentam. Os reajustes contratuais seguem uma rotina de altos repasses, enquanto setores como saúde, educação e segurança continuam com recursos insuficientes para atender às demandas da população.

De lá para cá, a cada 12 meses a empresa vem enchendo os cofres com verba pública, passado pela crise da compra de respiradores em loja de vinho, do pedido de impeachment protocolado na Assembleia Legislativa, da pesquisa que colocou Wilson Lima como “pior governador do Brasil“, até o ano de 2025, quando mais um aditivo chegou a incrível marca de mais de R$ 7 milhões.

A MÁQUINA E A MÍDA PAGA A SERVIÇO DO GOVERNADOR
A recente declaração do governador Wilson Lima a um portal de notícias de Manaus, comparando o Delphina Aziz com o Sírio Libanês, mostrou o poder que o uso da “mídia amiga” pode ter a favor do Governo do Amazonas.
Neste contexto, entram os contratos milionárias com a Agência de Publicidade Mene e Portela, velha parceira da gestão estadual, que tem a missão de “distribuir o bolo” para os portais parceiros, que trocam jornalismo por verbas publicitárias pagas pelo Governo do AM.
Já em 2020 Wilson Lima autorizou pagamentos de mais de R$ 13 milhões à agência, conforme mostra o contrato aditivado sob pretexto de divulgar o que for de “utilidade pública” em plena crise da Covid, enquanto pacientes morriam, inclusive sem oxigênio, nos hospitais.


A obsessão pela construção de uma imagem positiva do governo e do próprio governador salta aos olhos nas coletivas de imprensa cuidadosamente orquestradas. Equipes de reportagem contratadas pelo próprio Estado realizam a chamada “cobertura oficial”, transformando pronunciamentos em verdadeiras sessões de autoelogio às supostas realizações da gestão.
Os eventos, que deveriam ser espaços para prestação de contas e transparência, tornaram-se produções cinematográficas – com direito a cenários impecáveis, iluminação profissional e enquadramentos que mais parecem campanhas eleitorais. Enquanto isso, as reais demandas da população ficam em segundo plano, ofuscadas por narrativas de sucesso que nem sempre refletem a realidade dos amazonenses.
Desde 2020 até hoje a Mene e Portela segue titular nas contas da Secretaria. No Portal da Transparência, os mais de R$ 33 milhões assinados pela secretária de Comunicação não deixam dúvidas da importância que o Governo do Amazonas dá ao quesito “pague para ser bem falado na mídia”.

POPULAÇÃO EXPÕE A REALIDADE NUA E CRUA
Nas redes sociais do próprio governador fica claro que nem gastando milhões em propaganda Wilson Lima consegue fugir da realidade. Cidadãos cobram ações práticas que vão além da propaganda oficial.

Aprovados no concurso público da Segurança que estão na eterna fila de espera, falta de remédios, de médicos e atendimento precário na Saúde, e as mazelas do dia-a-dia estão expostas sobre as postagens maquiadas das redes sociais do governador.

Para o deputado estadual Wilker Barreto (Mobiliza), os gastos exagerados com propaganda são uma marca explícita da falta de critérios com o que é prioridade. De acordo com o líder da oposição, o dinheiro “está fazendo falta na Saúde, no chamamento de concursados da PM, na abertura do Hospital do Sangue que se arrasta há anos. Quando o Governo toma decisões equivocadas, como esta, coloca em risco a vida da população”.
O OUTRO LADO
Assim como faz com os internautas, o Governo do AM deixa os questionamentos sem resposta. Mais uma vez nossa equipe de reportagem entrou em contato para dar ao Governo do Amazonas a oportunidade de se posicionar. Ficamos sem resposta, mas o espaço segue aberto:
Prezados, boa tarde
Estamos produzindo uma reportagem sobre os contratos pagos pelo Governo do Amazonas às agências de publicidade, por meio da Secretaria de Estado de Comunicação Social, e gostaríamos de respostas sobre alguns questionamentos:
1 – O governador Wilson Lima atua pessoalmente na escolha dos parceiros e veículos de comunicação escolhidos para receber verba publicitária paga com recursos do orçamento da Secretaria ?
2 – Quais são as obrigações editoriais dos veículos de comunicação com o Estado, a partir do momento em que são escolhidos para veicular campanhas do Governo do Amazonas ?
3 – Quais são os critérios para a escolha das agências de publicidade contratadas pelo Governo do Amazonas para receber as verbas de divulgação das ações do Governo a serem distribuídas para os veículos?
4 – Como o Governo do Amazonas decide valores, número de campanhas e veículos no processo de análise da distribuição de suas campanhas?
FONTE: Amazônia Press